{"id":1078,"date":"2017-01-18T21:35:49","date_gmt":"2017-01-18T21:35:49","guid":{"rendered":"http:\/\/www.cartasparajulieta.pt\/?p=1078"},"modified":"2017-06-10T20:28:09","modified_gmt":"2017-06-10T20:28:09","slug":"correio-dos-leitores-o-meu-homem-nao-e-o-meu-homem-ou-dos-nao-retornados","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.cartasparajulieta.pt\/?p=1078","title":{"rendered":"O meu homem n\u00e3o \u00e9 o meu homem ou Dos n\u00e3o-retornados"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_1080\" aria-describedby=\"caption-attachment-1080\" style=\"width: 1117px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1080 size-full\" src=\"http:\/\/www.cartasparajulieta.pt\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/IMG_47385.PNG.jpg\" alt=\"www.cartasparajulieta.pt\" width=\"1117\" height=\"1116\" srcset=\"http:\/\/www.cartasparajulieta.pt\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/IMG_47385.PNG.jpg 1117w, http:\/\/www.cartasparajulieta.pt\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/IMG_47385.PNG-150x150.jpg 150w, http:\/\/www.cartasparajulieta.pt\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/IMG_47385.PNG-300x300.jpg 300w, http:\/\/www.cartasparajulieta.pt\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/IMG_47385.PNG-768x767.jpg 768w, http:\/\/www.cartasparajulieta.pt\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/IMG_47385.PNG-1024x1024.jpg 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 1117px) 100vw, 1117px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1080\" class=\"wp-caption-text\">Texto enviado pela nossa leitora: Catarina Martins. Foto: Marisa Silva<\/figcaption><\/figure>\n<div id=\"fb-root\"><\/div>\n<p><script>(function(d, s, id) {\n  var js, fjs = d.getElementsByTagName(s)[0];\n  if (d.getElementById(id)) return;\n  js = d.createElement(s); js.id = id;\n  js.src = \"\/\/connect.facebook.net\/pt_PT\/sdk.js#xfbml=1&version=v2.8\";\n  fjs.parentNode.insertBefore(js, fjs);\n}(document, 'script', 'facebook-jssdk'));<\/script><\/p>\n<div class=\"fb-like\" data-href=\"http:\/\/l.facebook.com\/l.php?u=http%3A%2F%2Fwww.cartasparajulieta.pt%2F%3Fp%3D1078&amp;h=ATM03c4u6TlS_Oevn40l5lEiabPE_sx3x5PVB2c_rrO3WTSsdCBhdTJz0G3zKt2-lJZdUebnBC0y6_rD46MGEUdxY_eEanUR-fdcBLDJ9_2vN7wThNUdyKUKEmS6wrDIay607Oes35nWcucdTaY&amp;s=1\" data-layout=\"standard\" data-action=\"like\" data-size=\"small\" data-show-faces=\"true\" data-share=\"true\"><\/div>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>O meu homem n\u00e3o voltou. Veio apenas, em seu nome, um outro homem, preencher um lugar \u00e0 mesa e \u00e0 cama. Um outro, que n\u00e3o \u00e9 o meu.<\/strong><\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>O meu homem n\u00e3o \u00e9 o meu homem. \u00c9 um misto de dureza e nada na cara. \u00c9 um olhar vazio que n\u00e3o tem amanh\u00e3.<\/p>\n<p>O meu homem \u00e9 um corpo que me olha em sil\u00eancio, sem romantismos, sem palavras doces, sem a energia no olhar com que um dia me disse \u201cvem comigo esconder-nos na duna\u201d.<\/p>\n<p>O meu homem \u00e9 um rasto de sangue seco que nunca ser\u00e1 limpo da testa, das ros\u00e1ceas, dos cotovelos, da palma da m\u00e3o que j\u00e1 n\u00e3o me d\u00e1.<\/p>\n<p>O meu homem um dia possuiu-me\u2026 agora furta-me aos len\u00e7\u00f3is, esvaziado e oco e eu deixei que uma guerra medonha mo arrancasse como quem leva cabelos e dentes e tudo numa identidade que n\u00e3o volta.<\/p>\n<p>O meu homem para quem me guardei anos\u2026<\/p>\n<p>[para aquele momento, ainda de v\u00e9u, aben\u00e7oados por Deus e longe do olhar fiscalizador \u00a0dos pais\u2026 com quem eu fiquei em segredo ali t\u00e3o protegida\u2026 ali t\u00e3o n\u00f3s os dois\u2026e \u00e0 frente s\u00f3 futuro, s\u00f3 plenitude, s\u00f3 vida longa.]<\/p>\n<p>O meu homem n\u00e3o vive. Sobrevive. E n\u00f3s com ele. O meu homem foi pai\u2026 j\u00e1 n\u00e3o \u00e9, porque um pai \u00e9 colo, \u00e9 amor, \u00e9 futebol em fintas com bolas e filhos entre as pernas e o meu homem, este meu homem, n\u00e3o tem nada disso.<\/p>\n<p>E eu continuei de avental a limpar caras e narizes e queixos e rabos de garoto e na cozinha a fazer bolos para lhe dar a comer, sem que ele se aperceba das framboesas no topo.<\/p>\n<p>E ele vem com as entranhas tatuadas de uma guerra de medos e dentes e mamas de escrava \u2026 de tudo sem nada \u2026 sem vida, sem alegria, sem compreens\u00e3o. Apenas morte e corpos deitados abaixo. E cartas que n\u00e3o vinham de um homem que ia deixando de o ser.<\/p>\n<p>E eu esperava primeiro dias, semanas, depois meses, depois anos. Nada anunciava na nossa vida e eu escrevia cartas falsas aos meus filhos que serpenteavam por entre as minhas saias sempre que um daqueles envelopes, escritos \u00e0 noitinha, ao lume, chegava pela m\u00e3o do carteiro a quem pagava o favor com corpo e l\u00e1grimas.<\/p>\n<p><em>\u201cMeus queridos filhos, penso em voc\u00eas todos os dias. Eu ando bem. Demoro j\u00e1 pouco mas assim que puder regresso para brincar convosco e estarmos todos juntos, em fam\u00edlia\u201d<\/em><\/p>\n<p>As cartas traziam sublinhados a cores que os mais velhos foram estranhando (\u201co pai tem l\u00e1pis de cor l\u00e1?\u201d) que os filhos crescem e afinam\u2026 os meus afinavam todos os dias (\u201cporque \u00e9 que o pai diz sempre coisas parecidas?\u201d) e os mi\u00fados aninhavam-se em cobertores e em mim. E eu neles. A Vida toda ali. E o pai que n\u00e3o dizia nada.<\/p>\n<p>Andava escondido em lama e rumina\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Todos juntos em fam\u00edlia<\/em><\/p>\n<p>O meu homem agora n\u00e3o dorme\u2026 retorna todas as noites ao palco onde matou e viu morrer, onde minas assassinas rebentavam com mulheres, homens crian\u00e7as. Gente. O meu homem afaga a cabe\u00e7a com uma almofada que ainda tem folhas e terra e lama e p\u00f3. E n\u00e3o quer ouvir, n\u00e3o quer ouvir, n\u00e3o quer ouvir, nem sirenes, nem bombas, nem eu que o chamo, nem o nome que os filhos lhe d\u00e3o &#8230; n\u00e3o quer ouvir tiros que confunde com crian\u00e7as a chamar pela m\u00e3e, a meio da noite.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Todos juntos em fam\u00edlia<\/em><\/p>\n<p>Ant\u00f3nio, agora n\u00e3o \u00e9 do teu pai que fugimos. Desse, conseguimos sempre escapar para te abra\u00e7ar ao domingo na casa da eira. Agora fugimos de algo que n\u00e3o nos deixam fintar, do qual n\u00e3o te queres esconder. Agora fugimos de anos que te arrancaram de n\u00f3s, que te arrancaram de ti. Fugimos de uma guerra que te mata aos bocados mas que j\u00e1 te levou todo.<\/p>\n<p>O meu homem n\u00e3o voltou. Veio apenas, em seu nome, um outro homem, preencher um lugar \u00e0 mesa e \u00e0 cama. Um outro, que n\u00e3o \u00e9 o meu.<\/p>\n<p>E este ano, Ant\u00f3nio, s\u00e3o as nossas bodas de ouro. E v\u00eam os netos, que s\u00e3o a tua cara.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Todos juntos em fam\u00edlia\u2026<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O meu homem n\u00e3o voltou. Veio apenas, em seu nome, um outro homem, preencher um lugar \u00e0 mesa e \u00e0 cama. Um outro, que n\u00e3o \u00e9 o meu. 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