Mil palavras... Um sentimento...
 
Ano: <span>2018</span>

Desvanecer

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Hum… acho que é… framboesa?

A dor nas costas é brutal! Sinto o calor do asfalto nas pontas dos dedos, como se do resto do corpo estivessem desligados. Ouço vozes, mas lá muito ao fundo. Palavras emergentes, desprendidas de significado, perdendo-se no eco da dor. Sinto um toque de lábios que me sopra violentamente a vida, acompanhado de uma ritmada sequência de desespero pelo batimento do meu coração. Hum… acho que é… framboesa? Mordo os lábios à procura de confirmação. Certo! Com aroma de framboesa voltei à vida. Abro os olhos e entre o rosado esborratado da fruta consigo ler: “Estás bem?” – Agora estou! Os dedos conectaram-se e a dor esfriou com o aquecer do corpo. Mas quero mais framboesa. Levanto a mão para ti, e nem te importas quando sentes a textura rude de uma mão atropelada a desfilar por entre o teu cabelo, tentando deixar à vista o caminho para o pote das framboesas.

– Quem és tu? O meu anjo da guarda? 

– Não. Apenas o demónio que te atropelou. Desculpa!

– Quero… framboesa… 

E as palavras passaram a submergentes… a navegar no éter sem direção definida, sem saber distinguir o que vem primeiro: se o eco… se o eco. Brindas-me novamente com a melhor framboesa do teu pote, mas desta vez não consigo sentir o sabor… nem o calor… nem a dor.

Romeu ©

Templo da mente

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Subo os degraus do templo da mente e expulso todos os vendilhões e vozes galináceas que auguram o meu dia

Fecho os olhos! Subo os degraus do templo da mente e expulso todos os vendilhões e vozes galináceas que auguram o meu dia. Desenho-te num traço meigo… desenho-te, sim, só para mim! Desenho-te como nunca te vi, mas como sempre te senti. Enrolo o traço e dou-te forma, volume. Dou-te cor e sabor. Dou-te emoção, pondo em ti um pouco do meu coração. Dou-te voz, e sento-me, encantado, a apreciar a tua capacidade de fazer corresponder as palavras aos espaços vazios que há muito anseiam ser preenchidos. E sorrio…
Convido-te a patinar, livremente, por entre os segredos da minha mente. Eles revelam-se para ti. Expõem-se à tua passagem, ansiando que o teu toque os pulverize, libertando assim todo o espaço para os teus aposentos.
Recuso abrir os olhos. Receio que ao amanhecer, reveles ser apenas mais um sonho real, ao invés da por mim desejada realidade de sonho.

Romeu ©